Em seu perfil
em uma rede social, a jovem afirma que o crime aconteceu durante a festa
"The Box – Reveião", no dia 31 de dezembro, realizada no clube
Acadêmicos da Asa Norte. Ela diz que estava acompanhada de amigos quando foi
retirada da festa por um funcionário da segurança. Segundo ela, após o suposto
crime ela retornou para a festa para reencontrar os amigos e eles saíram do
local apenas na manhã seguinte
Ela afirma
que dançava perto da entrada do clube, pouco depois da meia noite, na companhia
de um amigo quando foi abordada por um segurança da festa. Segundo a jovem
relata, o homem expulsou somente ela do local da festa.
De acordo com
o relato, o homem a levou para trás de um carro estacionado em meio à mata que
cerca o prédio da escola de samba. Segundo a jovem, ele a virou de costas sobre
o carro e a violentou. Segundo ela, após cometer o crime o suspeito ainda
chamou outro segurança para também violentar a vítima. No relato ela conta que
perguntou ao segundo segurança o porquê de aquilo estar acontecendo e o segundo
segurança teria se recusado a violentá-la.
"Eu fui
estuprada por quem deveria assegurar minha segurança. Eu tive medo, não reagi
(poderia ter sido pior se reagisse, eu poderia apanhar, poderia demorar
mais...), só queria que acabasse logo", afirma a jovem no relato publicado
no último sábado (2).
A jovem afirma que prestou queixa à polícia na
tarde do dia 1º de janeiro, após contar para seus pais. A vítima registrou
ocorrência na Delegacia da Mulher, na Asa Norte, onde prestou depoimento.
Após
registrar a ocorrência, a vítima passou por perícia no Instituto Médico Legal
(IML) e foi encaminhada ao pronto socorro do Hospital Materno Infantil de Brasília
(HMIB) na Asa Sul. No hospital a vítima afirma ter realizado outros exames e
recebido medicação preventiva para o HIV.
A médica Ana
Carolina Silva atendeu a vítima e afirma que a medida é padrão para casos de
violência sexual. "Ela foi orientada para seguir os procedimentos do
Projeto Violeta e recebeu medicamentos para evitar gravidez ou contração de
DSTs", disse.
A reportagem
tentou contato com a organização do evento, mas não obteve respostas. Os
organizadores da festa publicaram uma nota em uma rede social em que afirmam
ter "prestado toda a assistência à vítima" durante o atendimento na
Delegacia da Mulher. "Antes de ir a delegacia entramos em contato com a
vítima para dispor também a ela toda documentação necessária", afirmaram.
Sobre o crime, a organização qualificou como "um comportamento
inaceitável".
O G1 ligou
para o proprietário da empresa que fazia a segurança do evento. De acordo com o
relato da vítima ele é o suspeito de ter praticado o estupro. O suspeito, de 33
anos, afirmou que teve relações sexuais com a vítima, mas que não cometeu
estupro. "Eu sou casado, tenho dois filhos e tive uma atitude impensada no
calor do momento por ter sido seduzido. Foi tudo consentido", afirmou.
Segundo ele, havia sete seguranças presentes ao evento – seis homens e uma
mulher – e o proprietário prestou depoimento à polícia para "dar sua
versão da história e esclarecer a participação da empresa no caso".
De acordo com
o suspeito, ele compareceu à Delegacia da Mulher na madrugada deste domingo (3)
para "dar sua versão da história". "Fomos à delegacia ontem e só
saímos de lá às 3h da manhã. Agora vamos esperar a intimação da polícia. Nada
disso foi forçado, nada disso foi violência", afirmou.
O Projeto
Violeta
O Projeto
Violeta foi criado pelo HMIB para ajudar mulheres que foram vítimas de
violência sexual. O programa teve início em 2003 e atende uma maioria de
vítimas que foram estupradas por desconhecidos. As mulheres que procuram o
programa passam por acompanhamento médico e psicossocial.
O programa
oferece a orientação para encaminhar a vítima à delegacia e ao Instituto Médico
Legal. É na delegacia que as vítimas podem pedir encaminhamento para uma casa
abrigo, caso se sintam em situação de perigo por causa do agressor.
As mulheres
que sofrem algum tipo de violência devem procurar ajuda em uma das Delegacias
Especiais de Atendimento à Mulher (Deam) ou denunciar o agressor por telefone
por meio do Disque 180.
Leia, na
íntegra, o relato da vítima:
"A festa
estava horrível, então meia hora antes da virada decidi ao menos “aproveitar” o
open bar, assim fiz.
Era mais de
meia noite, eu estava dançando com um amigo perto da entrada quando fui
abordada por um dos seguranças, que me coagiu a sair da festa, eu realmente não
entendi o motivo e mesmo alcoolizada só atendi por ser uma figura de autoridade
do local. Havia uma área de terra onde alguns carros estavam estacionados entre
o cerrado. Eu estava completamente vulnerável, com muito medo. Um dos carros
estava estacionado de ré para o cerrado, então atrás do carro só havia
vegetação. Ali ele me virou de costas e sem a menor cerimônia me estuprou. Eu
fui estuprada por quem deveria assegurar minha segurança. Eu tive medo, não
reagi (poderia ter sido pior se reagisse, eu poderia apanhar, poderia demorar
mais...), só queria que acabasse logo. Quando ele terminou mandou eu ficar lá,
mais uma vez tive medo e não me movi. Ele voltou com outro segurança e disse:
“Tá aí, cara, manda ver”. Não consigo descrever o que senti na hora. Ele saiu,
eu fiquei com o outro segurança e perguntei porque ele iria fazer aquilo comigo
também, acho que ele se assustou e disse que não ia fazer nada, respirei fundo
e voltei pra festa num misto de pavor e dormência. Não contei nada pra ninguém.
Me questionei se eu não tinha “pedido por aquilo”, olha que ridículo! É assim
que somos ensinadas. A culpa sempre é atribuída à mulher. O dia amanheceu, fui
pra casa com meu amigo, eu não conseguia ainda assimilar os fatos. Só pensei
que não podia banhar, deitei e tentei dormir. Foi um sono inquieto, eu sentia
dores internas, e comecei a lembrar de algumas frases que usamos na militância:
“moça, a culpa não é sua”, “não ensine meninas a não serem estupradas, ensine
meninos a não estuprarem”. Decidi levantar e tirar o absorvente interno (sim,
durante o estupro eu estava usando absorvente interno), acontece que eu não
consegui. Fiquei mais de uma hora pensando no que fazer, entrei em contato com
um grupo de apoio à vítimas de crimes sexuais ao qual faço parte, fui ouvida e
mesmo assim... Eu estava desnorteada! Não queria contar pra ninguém, estava com
vergonha, me sentindo suja, culpada... Quando num ímpeto saí do quarto e falei
com o meu pai um seco: “pai, eu fui estuprada”. Temos quatro cachorros, ele
estava lavando a área, parou na mesma hora, esperou minha mãe sair do banho,
contou pra ela. Fomos imediatamente à Delegacia da Mulher, eu sequer comi.
Saímos de casa por volta de 12h. Ficamos aproximadamente quatro horas na
delegacia, foi uma situação extremamente constrangedora, tive que repetir a
história várias vezes e reviver aquele momento. Fui encaminhada ao IML e ao
hospital da Asa Sul pela delegacia. O médico do IML não conseguiu tirar o
absorvente interno, meu desespero só aumentava. Cheguei ao hospital e fui
atendida por uma médica extremamente empática, finalmente me senti um pouco
menos desconfortável, ela me tratou tão bem! Ela me consultou e tirou o
absorvente, o que apesar de ter doído muito porque minha vagina está realmente
bastante machucada, foi um alívio. Tomei uma Benzetacil em cada lado (sim,
foram duas), remédio na veia, mais algumas doses únicas de remédio (via oral)
e, o que me abalou muito: iniciei a tomar o coquetel para AIDS (são 28 dias
tomando esses remédios fortíssimos, que causam enjoo, vômito e diarreia). Colhi
sangue também. Cheguei em casa à noite, exausta, faminta... Até que minha irmã
chegou e eu finalmente consegui chorar.
Eu sei que é
muita exposição, mas, sinceramente?! Não é pior ao o que me aconteceu. Decidi
redigir esta nota de repúdio por alguns motivos específicos: eu fiz tudo como
orienta a lei, tudo certinho, e uau!!! Quanta burocracia! A delegacia, o IML e
o hospital ficam completamente distantes um do outro, eu estava de carro,
acompanhada, mas e a mulher que não tem nenhuma assistência como faz? Ela não
faz, ela desiste. Porque se eu tivesse sozinha, juro que teria ido ao posto de
saúde dizer que transei bêbada com absorvente interno, eu não teria forças pra
passar por isso sozinha (e se não fosse o absorvente interno nem teria ido,
correndo riscos de saúde); quantas outras mulheres não devem ter sofrido nas
mãos desse imbecil e dessas empresas de segurança irresponsáveis que contratam
qualquer um?! E o mais importante, eu não suporto imaginar que outra mulher
pode passar pelo mesmo que eu passei e ficar calada, estou fazendo a minha
parte pra evitar outras dores e outros sofrimentos.
P.S.: A nota
está sujeita a edições para acréscimo de informações.
P.S. 2:
Seguem algumas imagens, que comprovam o narrado, nos comentários.
P.S. 3: Tenho
recebido muitas mensagens em apoio, estou lendo todas na medida do possível.
Muito obrigada, de coração! Tenho recebido também solicitações de amizade,
ativei a configuração “seguir” para que recebam atualizações sobre o caso. Tudo
que fizer referência ao mesmo terá status público. Meus familiares e amigos
estão sofrendo junto comigo, então não quero que eles sejam expostos. Mais, uma
vez, muito obrigada!
P.S. 4: Aos
que estão duvidando, me julgando... Só desejo que nunca aconteça nada
semelhante nem à pessoa que vocês mais odeiam."
Nenhum comentário:
Postar um comentário