Os Awá Guajá são definidos pela Funai como “de recente contato”. A
maioria só fala Guajá. Antonio Guajajara, da Terra Caru, falou que eles
estão correndo extremo perigo. Existem também desse mesmo povo, alguns
grupos isolados, ou seja, os que recusam contato.
No Maranhão os remanescentes de Floresta Amazônica estão em três
terras indígenas: Awá Guajá, Caru, onde vivem os Guajajara e onde tem
mais duas aldeias de Awá e a TI Alto Turiaçu onde vivem os Ka’apor.
Os Guajajara, depois da desintrusão (retirada de ocupantes ilegais),
formaram dois grupos de vigilantes: os Guardiões da Floresta, e as
Guerreiras da Floresta, para fiscalização e conscientização da
importância da preservação.
Leia abaixo também o longo depoimento de Antonio Guajajara explicando
a situação atual. Neste fim de semana foram feitas reuniões de
grileiros para planejar novas invasões.
Depoimento de ANTONIO WILSON GUAJAJARA, cacique da aldeia Maçaranduba, da Terra Indígena Caru, Maranhão
“A gente vem acompanhando as ameaças que estão surgindo sobre a terra
indígena Awá Guajá. Nós que moramos aqui perto, na verdade são três
terras coladas uma a outra: a terra indígena Caru, a terra indígena Awa
Guajá e a terra indígena Alto Turiaçu dos indígenas Ka’apor.
A gente está vendo a terra dos Awa a um instante ela sendo invadida
pelos não-indígenas, pelos invasores, os antigos invasores que moravam
nela. Quando teve a desintrusão, quando eles saíram, e agora essa nova
possibilidade de o governo liberar as terras indígenas. Isso faz com que
eles achem que está tudo já liberado e aí eles estão se manifestando
para querer invadir.
Só que nós aqui, Miriam, dessa região onde eu moro, a gente trabalha
da maneira organizada. Sabemos que as únicas terras em que existe mata
no Maranhão são a terra Caru, Alto Turiaçú e Awa Guajá. São as únicas
terras que tem matas. Foi formado desde 2014 o grupo de Guardiões da
Floresta, no qual a gente faz a vigilância. A gente faz a vigilância
para que essas pessoas não possam entrar. Aqui na terra Caru a gente
trabalha para isso: defender a floresta de uma maneira pacífica, sem
violência, educada.
Já fizemos várias capacitações e sabemos também que o nosso dever de
proteger a floresta é muito importante porque aqui na terra também tem
os Awá que nunca tiveram contato com ninguém. Não sei se você sabe, mas
aqui na Caru tem ainda esses indígenas. Eles são índios de recente
contato, que são a aldeia Tiracambú e a aldeia Awá. Ficam aqui na terra
Carú.
A gente está pensando em continuar fazendo esse trabalho. Vem dando
certo. Hoje a terra indígena Caru, Turiaçu, a Pindaré, outra terra aqui
também de Guajajara, a gente vem vendo resultado, trabalhando os
guardiões juntos, mostrando para o invasor que a gente não está para
entrar em conflito, que a gente está para conversar, fazendo com que
eles entendam que a terra é nossa, é indígena.
E também aqui, quando foi formado o grupo de guardiões da floresta,
foi formado também o grupo das guerreiras, de mulheres, de Guerreiras da
Floresta como chamamos aqui. O trabalho delas é fazer reunião com os
povoados, nas cidades, informando a importância da floresta, a
importância dos rios, a importância de todos animais, e também
informando que tem indígena dentro da terra que não se deve ter contato.
A gente vem trabalhando muito forte em cima disso, avisar aos
não-indígenas, os “brancos” como falamos.
O trabalho delas é muito importante. Esse grupo só existe aqui na
Caru. Desde 2014 os Guardiões andam pela terra e as Guerreiras andam
pelo outro lado, dos não-indígenas, fazendo esse tipo de trabalho que é
perigoso, mas é importante para nós tudo.
A gente está bastante preocupado. A nossa terra indígena Carú é de
172 mil hectares, só floresta. Se a gente não tiver parceria com os
amigos, com outras pessoas, fica também difícil para gente. Sabemos que
quem vai sofrer mais ainda são os próprios Awá, que não estão entendendo
nada do que está acontecendo.
A terra indígena Carú está rodeada de povoados. É tipo uma ilha, tem
dois rios. Existe também bastante invasão. Mas a gente está batendo
firme e forte, continuando nossos trabalhos de vigilância. Mas a gente
precisa de mais força também. Esse é um pouco de história aqui da Caru.
Quanto à terra Awá, a gente quer unir forças. Tanto com os Awá, que
são recente contato, quer unir força com a etnia Ka’apor, e quer unir
força com os outros parentes também para que a gente possa ajudar eles,
os Awá, a fazer suas aldeias lá dentro da terra. Eles não fazem ainda
por conta de ameaças, por conta de várias desmatamentos que estão sendo
muito fortes dentro da terra Awá. A gente foi lá, passou quase um mês
lá, e a gente não vê outra coisa a não ser pasto, criação de gado está
muito forte. E eles estão jogando agora é veneno por cima da floresta
para matar os matos e criar os capins. Fazer com que a pastagens
aumente. Isso é bastante preocupante para nós.
O que nos resta é unir as forças. Daqui para frente nós vamos fazer
isso, unir as forças. Vamos unir força para que a gente possa ajudar a
salvar os parentes Awá que não estão ainda contactados. Estão na mata.
Estamos preocupados com o futuro das nossas vidas e das deles também (…)
Eles dependem muito da gente e dos Ka’apor. Essas terras do Awá fica no
meio das duas terras, tanto da Caru quanto do Alto Turiaçu. Precisamos
de muito apoio para que possamos reflorestar o que foi destruído e
proteger também ao mesmo tempo as três terras juntos.
Quando você veio, naquele ano, não tinha muito desmatamento. Hoje
está muito diferente. A invasão aumentou, tiração de madeira também. Tem
alguns fazendeiros dentro, morando e eles estão utilizando esse tipo de
trabalho, jogando veneno por cima da terra dos Awá. Tudo isso está
acontecendo dentro da terra dos Awá. E eles usam também fogo quando é
tempo de seca. Saiu queimando tudo.
Não sabemos se os Awá, que ainda não estão contactados, nós não
sabemos se ainda existem lá dentro. Sabemos que tem na terra Caru, a
terra onde eu moro, mas na terra dos Awá não sabemos. Se tem, eles estão
vivendo meio que para um lado e para outro. Topa com madeireiro, topa
com caçador. Principalmente agora com o que está acontecendo com eles.”
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