Atrás de maior vivência, num filme calibrado com excelentes músicas (há de Lili Marlene a Gimme some skin, my friend, passando por On the sunny side of the street), Allen Ginsberg, Jack Kerouac e Lucien Carr são representados por meio de anseios sexuais, julgamentos sociais e frustrações amorosas. Irrompe neles, como declara William Burroughs, a "decadência de padrões morais" proveniente do contato com as drogas.
Sedenta de novos ritmos e de inspiração de autores românticos, a patota quer tudo alterado. Num certo sentido, o longa de estreia de John Krokidas (que concorreu no Festival de Sundance) também persegue quebra de paradigmas - com bons efeitos. Definitivamente, Daniel Radcliffe, na pele de Ginsberg, se liberta do fantasma de Harry Potter, ao se arquear para provações homossexuais. Já Michael C. Hall torna passado a imagem de Dexter, com um quê do impecável Philip Seymour Hoffman, ao dar vida a David Kammerer, uma espécie de mentor do jovem Lucien Carr (papel do talentoso Dane DeHaan, saído da segunda parte do novo Homem-Aranha).
Num clima de descobertas, com ousadas incursões na biblioteca acadêmica para estabelecer "o novo olhar", os rapazotes dispersam as sementes do que viria a culminar no chamado movimento beatnik. A quebra de regras e as doses de disciplina aleatória e hedonista desembocam em alargamento de uma vida talhada também por punições. "O círculo libertino terminou", chega a constatar Burroughs (o convincente Ben Foster, de Alpha dog e O mensageiro). É tarde, porém, e há tragédia em curso. Um crime deixa patente o peso de conceitos morais que atrelam violência à "legítima defesa de honra".
Cacoete sistemático na narrativa assinada por John Krokidas - o efeito de viradas bruscas, a partir da ótica de cada personagem, pouco acrescenta à fita, ao imprimir maior velocidade no relato de "anjos da guarda" que cuidavam tanto de si quanto de pavimentar maior originalidade para a literatura norte-americana. Com camadas de versões para os movimentos de asas desses guardiões, a verdade - poeticamente encampada pelo cineasta - abraça duras verdades que remontam a farsas (no processo criativo de alguns personagens), limitações e até a incapacidade de amar ("Ele (Carr) precisa da gente, mas nunca nos quer", chega a sentenciar Kammerer). Um casamento perfeito para a inconstância de Carr, o paquerador que joga ao vento (leia-se Ginsberg): "Adoro os complicados".
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